Resenha: Um Homem Chamado Ove

Uma característica que já é marca do autor Fredrick Backman, é dar início ao livro com o final. No início de Um homem chamado Ove, Ove está comprando – ou tentando comprar – um iPad. Depois desse capítulo, que podemos considerar um prólogo, a narrativa se inicia três semanas antes da cena com o iPad. Então, já começamos a nos perguntar: por que diabos esse homem está comprando um tablet?

Já leu ou está pensando em ler Um Homem Chamado Ove? Leia aqui a resenha dessa obra!

Um Homem Chamado Ove é um livro sueco escrito por Fredrick Backman e lançado no Brasil primeiro pela editora Alfaguara, e agora é publicado pela editora Rocco. Na verdade, foi o primeiro livro desse autor, lançado em 2012. A obra é tão bem escrita e articulada, os personagens profundos e bem escritos, que não dá para perceber que esse é o primeiro livro de um autor.

O livro conta a história de Ove, um velho extremamente ranzinza. É o tipo de pessoa metódica e sem filtros, que chama os outros de idiota na cara quando estão fazendo coisas que ele considera idiotice, e faz patrulhas no condomínio residencial para ter certeza que todos estão seguindo as regras à risca. Ele não tem paciência para quem não segue regras. Os vizinhos o consideram aquele ‘vizinho amargo dos infernos’.

Mas por trás de todo esse mau-humor exterior existe uma história carregada de tristeza, que vai ser mostrada para o leitor de uma forma que parte o coração em uns momentos, e o aquece em outros. E toda essa tristeza começa a ser levada embora por uma série de acontecimentos que começa com um simples evento: um dia, um casal com duas filhas pequenas se mudam para a casa do lado e destroem a caixa de correio de Ove no processo. Esse evento é a porta de entrada para uma história que conta com um gato mal cuidado, amizades inesperadas, e a arte de dar ré em um carro com trailer acoplado.

É importante dar um aviso de gatilho aqui: esse livro trata de assuntos como suicídio, perda familiar, homofobia e violência contra animais.

Sobre o livro

O livro é narrado em terceira pessoa, mas apesar disso, o livro é repleto de diálogos e monólogos entre os personagens, e é através desse recurso que os eventos principais do livro são revelados. Isso dá um movimento único para o livro. Já que em vez de ver as revelações na cabeça de um personagem ou contado por um narrador que não faz parte da história, vemos os próprios personagens contar momentos importantes na medida que eles mesmos estão descobrindo como se sentem em relação ao que aconteceu. Além disso, também podemos perceber na leitura a reação das pessoas ao redor enquanto ouvem as histórias, além das emoções da personagem que estava envolvida diretamente com o acontecimento.

Sempre que começo um livro, paro para pensar quem é o vilão, o que o personagem principal e seus companheiros terão que superar. Aqui o protagonista é o próprio Ove, o que dá para perceber pelo nome do livro, e dá para considerar que o antagonista vem do Ove também: a sua personalidade, suas tendências suicidas e o bloqueio que faz com que ele evite manter contato com as pessoas.

“Não faz sentido a vida ser assim. É o que Ove sente.”

Este é um livro sem grandes acontecimentos, não é nada como plot de cinema ou uma corrida para atingir uma cota ou objetivo final, por exemplo, salvar o mundo, nada disso. É um livro sobre questões da vida, do dia a dia, coisas que podem acontecer com qualquer um – e algumas delas podem até mesmo ter acontecido com você.

Mas apesar de ser um livro que trata de assuntos pesados, e tem tantos temas tristes, não é um livro triste ou absurdamente dramático. É um livro muito engraçado. Backman consegue apresentar os acontecimentos de forma leve, e muitas das situações nas quais Ove se mete são muito engraçadas e cheias de ironia. Sem brincadeira, ri alto em vários momentos dessa leitura.

Fim no começo

No primeiro capítulo, antes de chegar na página 20 de um livro com 300 páginas, já é revelado que a esposa de Ove, Sonja, faleceu; que Ove perdeu seu emprego e que Ove pretende morrer.

Essas revelações assim tão cedo tiram um pouco o equilíbrio. Autores como Nicholas Sparks e John Green nos ensinaram a esperar uma história de um romance, uma morte e a pessoa lidando com a morte depois, talvez com uma piora ou outra de emprego ou escola. Mas se tudo já aconteceu antes de o livro começar, e o começo indica que o personagem principal quer terminar a história, o que devemos esperar da história que estamos nos comprometendo a ler?

Sentimentos

É incrível como um livro pode ser capaz de fazer uma pessoa chorar usando cenas básicas, mostrando problemas relativamente comuns do dia a dia.

Mais do que tudo, eu amei a forma como as mudanças do Ove acontecem de forma gradual, sem saltos enormes. Ao mesmo tempo, não é exatamente uma mudança, e é mais uma lenta revelação de quem Ove realmente é, já que ele estabeleceu o caráter dele ainda quando jovem.

Além de tudo é muito interessante ver como o livro trabalha as reflexões sobre o amor e o luto.

Ao ler esse livro, senti o meu coração partindo por Ove e por tantos outros personagens em vários momentos. Dei risadas, gargalhadas altas, ao ponto que meu namorado ficou me perguntando o que estava acontecendo para eu estar rindo tanto. Senti aquele quentinho no peito, pois esse livro tem muitos momentos que fazem você acreditar no melhor das pessoas.

E acima de tudo: não senti vontade de parar de ler.

Recomendações:

Esse livro é perfeito para quem gosta de ficção literária com estudo profundo de personagens. Nele aprendemos personalidade, caráter, motivações… Vemos as diferentes formas de lidar com luto, lidar com amor, lidar com objetos, limitações físicas e emocionais.

Se você gosta de ler e entender – por pedacinhos – um pouquinho mais sobre a natureza humana, não hesite!


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