A Visita

Um conto que escrevi e decidi compartilhar. Espero que gostem!

Tenho uma moradora extra na minha casa, que é daquelas exigentes. Exige atenção, comida, às vezes tira meu apetite, e me impede de fazer as coisas que eu gosto.

Ela é mal-educada, e perdi as contas de quantas vezes ela não me deixou dormir, falando no meu ouvido até tarde, ou me acordou de madrugada com o mesmo tipo de truque. Ela aparece quando penso que já me deixou em paz e bagunça a minha vida inteira, o que é ainda mais frustrante quando considero que não tive tempo o suficiente para sequer arrumar metade da bagunça que ela deixou anteriormente. Ela aparece quando sabe que tenho compromissos, quando prometo que vou ver meus amigos, quando estou começando a tomar mais cuidado comigo mesma, e tira todo o meu tempo e capacidade de fazer qualquer uma dessas coisas.

Já tentei conversar com ela. Tentei fazer acordos, falar mais alto e fazer valer a minha vontade anterior. Mas apesar de chata, a voz dela é poderosa. Ela consegue me convencer que aquela arrumação que eu ia fazer não é tão importante assim. Por que eu estou me preocupando tanto se tudo vai ficar bagunçado de novo? Ela me convence de que aquele compromisso é horrível e faria eu me sentir ainda pior do que estou – mentira, ela que faz eu me sentir miserável. Me convence de que ela é a única que importa de verdade na minha vida, e que a única forma que eu teria de me livrar da presença dela se estou tão incomodada seria arrumar as minhas coisas e sair de casa – falei que ela era mal-educada, não falei?

Ela me visita e faz morada na minha casa com cada vez mais frequência, se impondo cada vez mais, e ainda quer que EU saia da minha casa, é mole? Mas tenho que confessar que às vezes essa oferta me tenta. Penso em dormir uma noite inteira sem nenhum tipo de remédio, penso em saltitar pelas ruas todos os dias, em finalmente viver em paz, e fico tentada. Mas é a MINHA casa, e eu me recuso a sair.


Sei que muitas pessoas vão me mandar buscar ajuda, mas a questão é: nenhuma ajuda é de graça! A balinha pra aguentar ela durante o dia custa dinheiro, o seu Zé que dá o papel pra comprar a balinha custa mais dinheiro ainda. As longas conversas que eu tinha com estranhos falando de como essa visita era incomoda – e isso no tempo em que ela me visitava só uns 3 ou 4 dias por mês – custavam dinheiro e um tanto da minha energia. Imagina pagar alguém para essa pessoa falar “Por que você não tenta ignorar um pouco essa visita e participar dos compromissos assumidos anteriormente? Você pode se sentir melhor depois de passar um tempo participando mais da vida.”. Gostaria de ir, mas a minha visita esconde o sabonete, esconde minhas roupas esconde a chave da porta… mulher, você quer que eu pule pela janela?

Acho que nem mesmo o meu namorado que mora com a gente consegue entender completamente. Ele vê o que essa visita – a esse ponto, acho que posso chamar de moradora, não é mesmo? – faz comigo. Ainda mais agora que ela passa o tempo todo em casa, saindo pra passear e me deixando em paz talvez uns dois dias no mês.

Ele vê ela segurando minhas chaves, segurando a minha roupa, roubando meu computador, mas acho que ele não entende como é difícil pra mim pegar essas coisas de volta. Às vezes ela segura tudo que eu gosto tão forte, que a única coisa que me sinto capaz de fazer é voltar pra cama e tentar tirar uma soneca para compensar o tanto que acordei durante a noite.


Não vou dizer que ele não enfrenta essa folgada, ele é o que mais consegue enfrentar. Não queria expor ele dessa forma, mas é ele que de vez em quando dá uns tapas na cara dela, pega minhas roupas e diz pra ela calar a boca por umas horas. Ele me carrega no colo, quase correndo, e aí eu consigo ver o mundo sem esse peso indesejado me seguindo para todo lugar. Ele é um herói.

Mas às vezes nem ele consegue vencer a briga, então eu uso as roupas que ela não pensou em esconder, ele usa a chave dele pra abrir a casa, e saímos pela rua com ela falando no meu ouvido “isso, fica olhando para todas essas pessoas sem visitantes, vê como a vida deles é bem melhor? Você nunca vai ter isso”

E eu acredito nela.

Queria escrever uma história com um final de como consegui colocar essa visitante para fora, botar o link do vídeo da expulsão no TikTok e ver viralizar, imaginar multidões a vaiando enquanto olho do alto da minha varanda com um copo de suco de laranja bem gelado e nem um pingo de dó, todas as portas trancadas, todas as fechaduras trancadas, e eu anunciando a mais verdadeira verdade de que ela nunca mais pisaria nem mesmo nas proximidades do meu terreno sem ser arrastada aos gritos por policiais por violar a medida restritiva… Mas a verdade é que ela está lendo esse texto por cima dos meus ombros, e se ele vir a luz da internet, é porque, em uma luta com ela, consegui vencer por 1 minuto.


Posted

in

by

Tags:

Comments

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *